Droppin’ Science

Dezembro 6, 2006

Textos de Alberto Caeiro (Fernando Pessoa)

Arquivado em: Sem Categoria — BigRev @ 10:36 pm
Alberto Caeiro (Fernando Pessoa)

VII

Uma das conversas mais interessantes, em que entrou o meu mestre Caeiro, foi aquela, em Lisboa, em que estávamos todos os do grupo e por acaso se discutiu o conceito de Realidade.
Se não me engano ao lembrar, essa parte da conversa começou por uma observação lateral do Fernando Pessoa a qualquer coisa que se havia dito. A observação foi esta: «No conceito de Ser não cabem partes nem gradações; uma coisa é ou não é.»
«Não sei se será bem assim», objectei eu. «Há que analisar esse conceito de ser. Parece-me que ele é uma superstição metafísica, pelo menos até certo ponto…»
«Mas o conceito de Ser nem é susceptível de análise», respondeu o Fernando Pessoa. «A sua indivisibilidade começa aí».
«O conceito não será», repliquei, «mas o seu valor é.»
O Fernando respondeu: «Mas o que é o “valor” de um conceito independentemente do próprio conceito? Um conceito, isto é, uma ideia abstracta não é susceptível de mais nem menos, e portanto não é susceptível de valor, que é sempre uma questão de mais ou menos. Pode haver valor no uso ou na aplicação, mas esse valor é do uso ou da aplicação e não do conceito em si mesmo.»
Nisto interrompeu o meu mestre Caeiro, que estivera ouvindo muito com os olhos esta discussão transpontina: «Onde não pode haver mais nem menos não há nada.»
«Ora essa, porquê?», perguntou o Fernando.
«Porque tudo quanto é real pode ser mais ou menos, e a não ser o que é real nada pode existir.»
«Dê um exemplo, ó Caeiro», disse eu.
«A chuva», respondeu o meu mestre. «A chuva é uma coisa real. Por isso pode chover mais e pode chover menos. Se você me disser: “esta chuva não pode ser mais e não pode ser menos”, eu responderei: “então essa chuva não existe”. A não ser, é claro, que você queira dizer a chuva tal como é nesse momento: essa realmente é a que é e se fosse mais ou menos era outra. Mas eu quero dizer outra coisa…»
«Está bem, compreendi perfeitamente», atalhei eu.
Antes que eu prosseguisse, para dizer não sei já o quê, o Fernando Pessoa voltou-se para Caeiro: «Diga-me você uma coisa» (e apontou com o cigarro): «como é que você considera um sonho? Um sonho é real ou não?»
«Considero um sonho como considero uma sombra», respondeu Caeiro inesperadamente, com a sua costumada prontidão divina. «Uma sombra é real mas é menos real que uma pedra. Um sonho é real – senão não era sonho – mas é menos real que uma coisa. Ser real é ser assim.»
O Fernando Pessoa tem a vantagem de viver mais nas ideias do que em si mesmo. Esqueceu-se não só de que estava argumentando, mas até da verdade ou falsidade do que ouvia: entusiasmaram-no as possibilidades metafísicas desta teoria súbita, independentemente da verdade ou falsidade dela. Estes estetas são assim.
«Isso é uma ideia admirável! E é originalíssima! Nunca me tinha ocorrido» (E este «nunca me tinha ocorrido»?, tão ingenuamente sugeridor da natural impossibilidade de ocorrer a outrem qualquer coisa que não tivesse já ocorrido a ele, Fernando?)… «Nunca me tinha ocorrido que se pudesse considerar a realidade como susceptível de graus. Isso, de facto, equivale a considerar o Ser não como uma ideia propriamente abstracta mas como uma ideia numérica…»
«Isso é um bocado confuso para mim», hesitou Caeiro. «Umas parece-me que sim, que é isso. O que eu quero dizer é isto: ser real é haver outras coisas reais, porque não se pode ser real sozinho; e como ser real é ser uma coisa que não é essas outras coisas, é ser diferente delas; e como a realidade é uma coisa como o tamanho ou o peso – senão não havia realidade – e como todas as coisas são diferentes, não há coisas iguais em realidade como não há coisas iguais em tamanho e em peso. Há-de haver sempre uma diferença, embora seja muito pequena. Ser real é isto.»
«Isso ainda é mais curioso», exclamou o Fernando Pessoa. «Você então considera a realidade como um atributo das coisas; assim parece ser, visto que a compara ao tamanho e ao peso. Mas diga-me uma coisa: qual é a coisa de que a realidade é um atributo? O que é que está por trás da realidade?»
«Por trás da realidade?», repetiu o meu mestre Caeiro. «Por trás da realidade não está nada. Também por trás do tamanho não está nada, e por trás do peso não está nada.»
«Mas se uma coisa não tiver realidade não existe, e pode existir sem ter tamanho nem peso…»
«Não se for uma coisa que por natureza tenha tamanho e peso. Uma pedra não pode existir sem tamanho; uma pedra não pode existir sem peso. Mas uma pedra não é um tamanho e uma pedra não é um peso. Também uma pedra não pode existir sem realidade, mas a pedra não é uma realidade.»
«Está bem», respondeu o Fernando, entre impaciente, apanhante de ideias incertas, e fugir-lhe o chão. «Mas quando você diz “uma pedra tem realidade”, você distingue pedra de realidade.»
«Distingo: a pedra não é realidade, tem realidade. A pedra é só pedra.»
«E o que quer isso dizer?»
«Não sei: está ali. Uma pedra é uma pedra e tem que ter realidade para ser pedra. Uma pedra é uma pedra e tem que ter peso para ser pedra. Um homem não é uma cara mas tem que ter cara para ser homem. Eu não sei porque isto é assim, nem sei mesmo se há porquê para isto ou para qualquer coisa…»
«Você sabe, Caeiro», disse o Fernando reflectivamente: «você está a elaborar uma filosofia um tanto ou quanto contrária ao que você pensa e sente. Você está a fazer uma espécie de kantismo seu – citando uma pedra-noumenon, uma pedra-em-si. Eu explico, eu explico…» E passou a explicar a tese kantiana e como o que Caeiro dissera se conformava mais ou menos com ela. Depois indicou a diferença; ou o que, a seu ver, era a diferença: «Para Kant esses atributos – peso, tamanho (não realidade) – são conceitos impostos à pedra-em-si pelos nossos sentidos, ou, melhor, pelo facto de que observamos. Você parece indicar que esses conceitos são tão coisas como a pedra-em-si. Ora isso é que torna a sua teoria difícil de compreender, ao passo que a de Kant, verdadeira ou falsa, é perfeitamente compreensível.»
O meu mestre Caeiro ouvira isto com a maior atenção. Uma ou outra vez piscou os olhos como para sacudir ideias como sono. E, depois de pensar um bocado, respondeu:
«Eu não tenho teorias. Eu não tenho filosofia. Eu vejo mas não sei nada. Chamo a uma pedra uma pedra para a distinguir de uma flor ou de uma árvore, enfim de tudo quanto não seja pedra. Ora cada pedra é diferente de outra pedra, mas não é por não ser pedra: é por ter outro tamanho e outro peso e outra forma e outra cor. E também por ser outra coisa. Chamo a uma pedra e a outra pedra ambas pedras porque são parecidas uma com a outra naquelas coisas que fazem a gente chamar pedra a uma pedra. Mas na verdade a gente devia dar a cada pedra um nome diferente e próprio, como se faz aos homens; isso não se faz porque seria impossível arranjar tanta palavra, mas não porque fosse erro…»
O Fernando Pessoa atalhou: «Diga-me uma coisa, para esclarecer tudo: você admite uma “pedreidade”, por assim dizer, assim como admite um tamanho e um peso? Assim como você diz esta pedra é maior – isto é, tem mais tamanho – que aquela, ou “esta pedra tem mais peso que aquela”, dirá você também “esta pedra é mais pedra do que aquela”? ou, em outras palavras, “esta pedra tem mais pedreidade que aquela”?»
«Sim, senhor», respondeu logo o mestre, «Eu estou pronto a dizer: “esta pedra é mais pedra que aquela”. E estou pronto a dizer isto se ela for maior que a outra, ou tiver mais peso, porque o tamanho e o peso são necessários a uma pedra para ela ser pedra… ou, principalmente, se ela tiver mais completamente que outra todos os atributos, como você lhes chama, que uma pedra tem que ter para ser pedra.»
«E o que chama você a uma pedra que você vê em sonho?», e o Fernando sorriu.
«Chamo-lhe um sonho», disse o meu mestre Caeiro, «Chamo-lhe um sonho de uma pedra».
«Compreendo», e o Fernando acenou. «Você – como se diria filosoficamente – não distingue a substância dos atributos. Uma pedra é uma coisa composta de um certo número de atributos – os necessários para compor aquilo a que se chama uma pedra – e de uma certa quantidade de cada atributo, que é o que dá à pedra determinado tamanho, determinada dureza, determinado peso, determinada cor, que a distinguem de outra pedra, sendo contudo ambas elas pedras porque têm os mesmos atributos, embora em quantidade diferente. Ora isto equivale a negar e existência real da pedra: a pedra passa a ser simplesmente uma soma de coisas reais…»
«Mas uma soma real! É a soma de um peso real e de um tamanho real e de uma cor real e assim por diante. E por isso é que a pedra, além do tamanho, do peso, etc., tem realidade também… Não tem realidade como pedra: tem realidade porque é uma soma de atributos, como você lhes chama, todos reais. Como cada atributo tem realidade, a pedra tem-na também.»
«Voltemos ao sonho», disse o Fernando.
«Você a uma pedra que vê em sonho chama um sonho, ou, quanto muito, um sonho de uma pedra. Porque diz você “de uma pedra”? Porque emprega a palavra “pedra”?»
«Pela mesma razão que você, quando vê o meu retrato, diz “isto é o Caeiro” e não quer dizer que seja eu em carne e osso».
Desatámos todos a rir. «Compreendo e desisto», disse o Fernando a rir connosco. Les dieux sont ceux qui ne doutent jamais. Nunca compreendi tão bem a frase de Villiers de l’Isle&Adam.
Esta conversa ficou-me gravada na alma; creio que a reproduzi com uma nitidez que não está longe de taquigráfica, salvo a taquigrafia. Tenho a memória intensa e clara que é um dos característicos de certos tipos de loucura. E esta conversa teve um grande resultado. Está claro que foi inconsequente como todas as conversas, e que seria fácil provar que, perante uma lógica rigorosa, só quem não falou se não contradisse. Nas afirmações e respostas, interessantes como sempre, do meu mestre Caeiro pode um espírito filosófico encontrar reflexos do que na verdade seriam sistemas diferentes. Mas, ao conceder isto, não creio nisto. Caeiro devia estar certo e ter razão, ainda nos pontos em que a não tivesse.
De resto, esta conversa teve um grande resultado. Foi nela que o António Mora bebeu a inspiração para um dos capítulos mais assombrosos dos seus Prolegómenos – o capítulo sobre a ideia de Realidade. Em todo o decurso da conversa, foi o António Mora o único que não disse nada. Limitou-se a ouvir com os olhos parados para dentro as ideias que se tinham estado a dizer. As ideias do meu mestre Caeiro, expostas nesta conversa com o atabalhoamento intelectual do instinto, e, portanto de um modo forçosamente impreciso e contraditório, foram convertidas, nos Prolegómenos, num sistema coerente e lógico.
Não pretendo diminuir o valor realíssimo de António Mora. Mas, assim como a base de todo o seu sistema filosófico nasceu, segundo ele mesmo o diz com orgulho abstracto, da simples frase de Caeiro, «A Natureza é partes sem um todo», assim uma parte desse sistema – o maravilhoso conceito da Realidade como «dimensão», e o conceito derivado de «graus de realidade» – nasceu precisamente desta conversa. O seu a seu dono, e tudo ao meu mestre Caeiro.

Alberto Caeiro (Fernando Pessoa)

X

«Nunca altero o que escrevi», disse-me uma vez o meu mestre Caeiro. «Se o escrevi assim é porque o senti assim, e nada tem para o caso que eu hoje sinta de um modo diferente. Os meus poemas contradizem-se muitas vezes, bem sei, mas que importa, se eu não me contradigo? Há coisas em alguns dos meus poemas, sabe?, que eu não seria capaz de escrever agora, em ocasião nenhuma. Mas escrevi-as então, e essa é que foi a ocasião em que as escrevi. Por isso ficam como estão.»
E, a meu pedido, exemplificou:
«Olhe, por exemplo, várias coisas no poema sobre o Menino Jesus. Eu hoje era incapaz, nem por distracção, de dizer que “a direcção do meu olhar é o dedo dele apontando”. Eu era incapaz de dizer que “ele brinca com os meus sonhos” e vira uns de pernas para o ar, e põe uns em cima dos outros, e outras coisas assim. Enfim, eu era incapaz de escrever o poema hoje, e afinal isso é que quer dizer tudo.»
Defendi o poema, as próprias frases que Caeiro nele incriminava.
«Não, não têm defesa. São absolutamente falsas. A direcção de um olhar não é um dedo: é a direcção de um olhar. Não se brinca com sonhos como se fossem pedras ou caixas de fósforos vazias. E tudo aquilo mesmo não é nada. Foi uma distracção minha e eu também existo nas minhas distracções, embora distraidamente.
«Lembro-me perfeitamente de como escrevi esse poema. O Padre B… tinha estado lá em casa a falar com a minha tia e esteve a dizer tantas coisas que me irritaram que eu escrevi o poema para respirar. Por isso é que ele está fora da minha respiração vulgar. Mas o estado de irritação é um estado falso em mim; por isso o poema não está inteiramente certo comigo, mas só com a minha irritação e com a pessoa a mais que a irritação é quando a gente a tem.
«Hoje, se estivesse irritado – o que já é muito difícil de acontecer – eu não escreveria coisa nenhuma. Deixava a irritação irritar-se. Depois, quando sentisse vontade de escrever, escrevia. Deixava o escrever escrever-se.
«Ainda hoje, de vez em quando, escrevo um ou outro poema com que não concordo; mas escrevo-o. Assim como acho toda a gente interessante por não ser eu, acho às vezes interessante um ou outro momento em que não sou eu. Em todo o caso, já hoje me não é possível afastar-me tanto do que quero como no poema sobre o Menino Jesus. Posso afastar-me de mim, mas já não me afasto da Realidade.»
Durante uns momentos, Caeiro esteve silencioso. Depois acrescentou:
«O poema de agora em que me afastei mais de mim é aquele que escrevi no mês passado, depois daquela conversa entre o Ricardo Reis e o António Mora sobre o paganismo e os deuses.»
«Ouvi-os, e pus-me a imaginar como é que se imaginava uma religião. E lembrou-me que deveria ser assim. Por isso escrevi o poema, não como acto poético mas como acto de imaginação… Sim, como se estivesse contando um conto a uma criança. Tinha que pôr lá o Príncipe… Eu também posso fazer contos de fadas – mas só uma vez, é claro…»
«Há um outro poema seu», disse eu, «que está um pouco nessas condições.» E, como Caeiro olhasse a pergunta, «É aquele em que você, falando de um homem numa casa iluminada, à distância, diz, quando deixa de ver o homem, que ele deixou de ser real».
«Eu não digo que ele deixou de ser real: digo que ele deixou de ser real para mim. Não quero dizer que ele deixasse de ser visível para quem esteja onde o veja. «Deixou de ser visível para mim; pode até ter morrido.»
«Você admite, então, duas formas de realidade?»
«Muito mais do que duas», respondeu inesperadamente o meu mestre Caeiro. «Você bem vê… Aquela cadeira é cadeira e aquela cadeira é madeira e aquela cadeira é a substância de que a madeira é feita, e que não sei o que é na química, e aquela cadeira é talvez – é com certeza – muitas outras coisas mais. Mas é-as todas. Se a vejo é principalmente cadeira; se a toco é principalmente madeira; se a mordesse e tomasse o sabor da madeira, ela seria principalmente a composição da madeira. São como o lado direito e o esquerdo, e a frente e as costas de qualquer coisa. Todos os lados são reais, cada um do seu lado. O homem que eu deixei de ver seria real, mas era de outro lado; como eu não estava desse lado, deixou de ser real para mim.»

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